ARTIGO: O tarifaço de 50% e o futuro da madeira de Mato Grosso

O tarifaço de 50% imposto pelos Estados Unidos sobre a madeira brasileira em 2025 não é apenas um movimento econômico. É um gesto político, simbólico, que projeta sombra sobre as florestas de Mato Grosso e sobre todos os que vivem dessa cadeia. Quando Trump assinou o decreto, não alterou apenas os números de exportação. Rompeu um espelho que refletia não só estatísticas, mas destinos: o do serrador em Juína, que vê a ociosidade chegar; o do madeireiro em Aripuanã, que acumula estoques encalhados; o do economista, que se perde na equação quebrada da elasticidade.

Por trás das serrarias, estradas e portos, existe uma floresta que não se curva às tarifas. O manejo sustentável, tão celebrado como avanço — com DOF+, Sisflora 2.0, rastreabilidade digital —, nunca foi apenas técnica, mas a tentativa humana de traduzir em nossa lógica a eternidade da mata. E, quando um império decide fechar uma porta, resta o esforço de abrir outra. A Europa surge como alternativa, mas impõe seus próprios labirintos. A EUDR, seu regulamento contra o desmatamento, exige due diligence, certificações, georreferenciamento. O madeireiro de Mato Grosso, que antes precisava apenas vender, agora precisa narrar a origem de cada árvore como se fosse uma linhagem ancestral. A madeira deixa de ser apenas viga ou tábua e passa a ser também documento, promessa, símbolo.

Talvez, em um futuro distante, a história da floresta mato-grossense seja contada não em tabelas, mas em epopeias. Dirão que ela sobreviveu às tarifas americanas, às operações policiais, às flutuações cambiais, porque guarda em si a promessa de permanência. Como já dizia Heráclito, ninguém se banha duas vezes no mesmo rio. Da mesma forma, nenhuma empresa exporta duas vezes a mesma madeira: o mercado, como o rio, nunca é o mesmo. O que hoje parece derrota pode se transformar na condição que empurra a madeira mato-grossense para novos mercados e usos, de residências de luxo em Milão a arranha-céus de madeira engenheirada em Tóquio.

Esse tarifaço, portanto, é espada e espelho ao mesmo tempo. Espada, porque corta os fluxos comerciais. Espelho, porque obriga Mato Grosso a olhar para dentro de sua floresta e se perguntar: somos apenas vendedores de tábuas ou guardiões de um patrimônio que transcende fronteiras? Talvez a resposta não esteja em Washington nem em Bruxelas, mas nas próprias árvores. Talvez a floresta seja a verdadeira autora dessa narrativa, e nós — presidentes, serradores, deputadas, economistas — não passemos de intérpretes temporários de uma linguagem muito mais antiga do que o mercado.

*Janaina Riva é bacharel em Direito e a deputada estadual mais votada de Mato Grosso

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